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Amor de mãe: a mulher que foi presa para proteger seus filhos

ESPECIAL PARA O FATOS REGIONAIS

O relógio não para. São 15:45 de sábado e Mariana anda de um lado para o outro. Ela está terminando de arrumar as compras, acabou de sair do mercado e abasteceu a geladeira. Vai receber seus três filhos, netos, noras e genros. A casa, normalmente vazia, vai ficar superlotada e ela tem muito o que fazer.

Este não é seu nome verdadeiro. Sua identidade foi preservada para garantir sua integridade. Mariana tem 63 anos e mora atualmente na Estância Turística de Santa Fé do Sul, mas não foi sempre assim. Ela conheceu a cidade há cinco anos e decidiu se mudar e construir sua nova vida ali.

Oficialmente, é oriunda do município de Osasco em São Paulo e se mudou para o interior a fim de curtir a aposentadoria. Ao menos é isso que todos os vizinhos e amigos que criou, é boa de papo, acreditam. Mas essa é apenas parte da verdade, assim como quando ela responde a perguntas sobre o marido. “Sou viúva”. De fato. Ela apenas esquece de mencionar ser a grande responsável por sua viuvez.

O ano era 1998 e Mariana tinha uma vida sofrida na Grande São Paulo. Mãe de três filhos, trabalhava como diretora de uma escola da cidade para sustentar a família e o marido. Um homem rude e viciado em álcool. Violento, ele vivia agredindo a esposa e os filhos, crianças e adolescentes, sem nenhum constrangimento.

Mariana conta que, um dia, ao chegar da escola, flagrou o marido mantendo os três filhos, dois meninos – na época com 15 e 17 anos – e uma menina, de 13, presos no banheiro. “Ele estava com a calça arriada, prestes a abusar dos próprios filhos”, lembra ela ainda emocionada.

No momento foi incapaz de fazer algo. “A gente apanha tanto que fica paralisada de medo, não consegue denunciar”, explicou ela que gostaria de apoiar mulheres que sofrem abusos emocionais de homens, mas sente-se incapaz de dividir sua história. Isso porque, alguns dias depois, decidiu agir. Enquanto o marido dormia ela se levantou, foi até a cozinha e esquentou uma bacia de água. Com a água fervendo, jogou sobre o corpo do marido que gritava de dor.

“Ele chamava pelo meu nome dizendo que estavam matando ele e eu respondia que era eu mesma, para ele aprender a não fazer o que queria com os filhos”, Mariana não demonstra arrependimento quando conta isso. O homem não morreu na hora. Vizinhos ouvindo os gritos chamaram a polícia que chegaram e levaram-no para o hospital, enquanto Mariana foi presa em flagrante, confessando o crime.

Ela demorou para ser presa, respondeu todo o processo em liberdade e, somente em 2004 foi condenada a 10 anos de prisão por homicídio. Ficou apenas 05 anos presa e cumpriu dois anos em regime condicional. Em 2011 era uma mulher livre e, no ano seguinte, para fugir de comentários, se mudou para Santa Fé do Sul.

Os filhos apoiam a mãe, mas ninguém fala muito no assunto. Quando Mariana foi presa, todos os filhos já eram maiores de idade, mas se mantiveram unidos e visitavam a mulher todas as semanas. “Nossa família é muito unida”, comentou a filha que agora já é mãe de duas lindas crianças, netas adoradas por Mariana.

“Eu não me arrependo, fiz para proteger meus filhos e faria novamente”, encerrou Mariana pedindo licença para a reportagem porque tinha de fazer um pudim que os filhos adoram.

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